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Meu espanto foi inenarrável: eu havia morrido. A polícia comunicou à minha família o “fato operante”. E o pior é que ninguém havia me avisado. Fiquei sabendo na multidão, que ocupava a minha casa. Aguardavam o meu corpo gordo e mal vestido, mãos cruzadas sobre o peito habitado por um colar africano. Falavam alguns: – “duvido que ele tenha morrido. Quem tem orelhas tão grandes é imortal.” – “morrer o que, se ele não tinha mais o que morrer?” – Fiquei por ali, observando.

Minha viúva estava escutando funk no volume mais alto no rádio da cozinha e tivemos uma séria discussão quando reclamei dela não ter, pelo menos, telefonado pra mim avisando a minha morte. –“Liguei.” – disse. – “mas a ligação caiu no caixão postal”.

Vanesca, “amiguinha”, me segurava quase que num abraço. Saia curtinha, um decote que permitia ver a argolinha prateada no umbiguinho encantador. Eu acreditava, que havia morrido até que a polícia chegou dizendo do engano na história. O morto morrido, não usava bengala.

Pediu desculpas pelo erro, foi-se. Olhei as profundezas do decote da Vanesca, e comentei: -“Veja você o quanto vale ao homem ter ao seu lado uma “bem galinha”. E ela: – “a gente faz o que pode não é mesmo? Minha mulher desligou o rádio.