Permanece ainda nos cordéis da minha memória o canto das lavadeiras do Engenho Uchoa, às margens do rio Tegipió. Às vezes alegre, outras vezes nostálgico. O encanto do malembe seguia o som ritmado das batidas com as roupas molhadas, na tentativa de alvejá-las nos espinhaços das pedras. Passarinhos dependurados nas pontas das palhas harmonizavam os arranjos vocais daquelas mulheres de roupas coloridas, molambos alvos enrolando cabeças, coxas provocantes, corpos suados, ainda acorrentados às lembranças da escravidão.
O canavial apenas bailava, se retorcendo sob a regência do vento soprado pelas asas livres dos carcarás. Perto, o engenho com os seus homens, amargamente produzindo a doçura do açúcar, o mel, a cachaça. Eu, “tiradô de capim” me permitia ser personagem incrustado nas ondas suaves daquele imenso, doce, e verde mar das caianas…Sinto precisão do meu dialeto /sem plural e sem crase, / bem simples / feito o gomo da cana, / que nem o rio paciente, / que segue se navegando, / a pétala solta levando / lavando a sombra da gente… Ah que saudade que tenho, / da cana sobrou o nó, / foi-se o tempo de engenho / lá no meu Tegipió…